Desconectar para conectar

2026-03-15 23:30

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Tem uma coisa que todo mundo que trabalha com tecnologia sabe, mas finge que não: a gente não desliga. Não de verdade. O notebook fecha, mas a cabeça continua compilando. O celular está na mesa de jantar, virado pra baixo; gesto simbólico, quase cerimonial; enquanto a mente ainda está refatorando aquele trecho de código que não ficou bonito o suficiente.

Eu sei disso porque eu sou assim.

Mas hoje foi diferente. Hoje eu desliguei. Não o computador; esse eu desligo todo dia. Eu desliguei eu. Passei o domingo inteiro com a minha família, sem abrir o terminal, sem olhar notificação, sem pensar em deploy. Só estando ali, presente, no que realmente importa.


O cardápio do domingo

E como todo bom domingo em família que se preze, a estrela do dia foi a comida. Cozinhei um cardápio inteiro do zero, com calma, sem pressa, sem timer de pomodoro; só o timer do forno.

O prato principal foi um salmão com camarão e cobertura cremosa que perfumou a casa inteira. De acompanhamento, um pommes aligot tão elástico que virou atração à parte, um arroz de alho com limão aromático e simples como deveria ser, e um brócolis assado crocante com parmesão que converteu até quem jurava não gostar de brócolis.

Foi uma mesa bonita. Dessas que a gente olha e sente que valeu o esforço. Dessas que nenhum console.log vai conseguir reproduzir.


O que a gente esquece

A verdade é que a gente passa a semana inteira resolvendo problemas de outras pessoas; ou criando os nossos próprios, dependendo do dia; e esquece que existem pessoas do outro lado da porta do escritório esperando pela nossa versão mais presente.

Não precisa ser nada grandioso. Não precisa ser uma viagem ou um evento. Às vezes é só sentar junto, comer bem, rir de alguma besteira que alguém falou. Estar ali. Inteiro. Sem a ansiedade de verificar se o build passou.

A gente subestima o quanto faz bem simplesmente não estar disponível por algumas horas. O mundo não para. O Slack sobrevive. As issues continuam lá, pacientemente esperando na segunda-feira.


A ironia

E aí veio a noite de domingo.

As pessoas foram embora, a cozinha ficou limpa, a casa ficou quieta. E o que eu fiz? Abri o notebook. Claro. Para escrever este post. Sobre desconectar.

Eu sei. A ironia não me escapa.

Mas talvez seja justamente esse o ponto. A gente não precisa virar monge digital. Não precisa jurar que nunca mais vai tocar num teclado no fim de semana. O que a gente precisa é escolher conscientemente quando ligar e quando desligar. E hoje eu escolhi desligar o dia inteiro; e ligar de novo só agora, à noite, pra registrar que valeu a pena.

Então, se você está lendo isso num domingo à noite ou numa segunda-feira de manhã: fecha essa aba. Vai abraçar alguém. Cozinha alguma coisa. O código espera. As pessoas, nem sempre.